>Bestiário

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CORTÁZAR, Julio. Tradução de Remy Gorga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

Embora nascido na Europa, Julio Cortázar viveu a maior parte de sua vida na Argentina, e é lá que ambienta seus contos, particularmente em uma Buenos Aires nostálgica, inesperada, aterrorizante. Como Borges ou Márquez, o autor transita pelo realismo mágico nesta coletânea de oito contos, obtendo com suas palavras exatas um resultado profundamente perturbador.

Em Bestiário, ele nos conta histórias de amor, relações familiares e amizades que seriam até banais, não fosse a sensação sub-reptícia, que a leitura transmite, de que algo mais está acontecendo além do que as palavras comunicam. Algo que irá fazer a história fugir da banalidade e enveredar por um caminho insólito, talvez cruel, talvez trágico. Em cada conto somos confrontados com o cotidiano de alguém que transita por Buenos Aires e adjacências; esse alguém , contudo, pode a qualquer momento ultrapassar a barreira tênue que separa o óbvio do fantástico.

Talvez seja um casal de irmãos que se deixa levar pela paranóia de que algo tenebroso disputa, cômodo a cômodo, sua casa; ou uma garota que toma um ônibus e se vê assediada por desconhecidos ameaçadores; uma noiva que esconde, entre os sorrisos e os doces, algum segredo enlouquecido; uma casa de tangos que atrai monstros insuspeitos, e quem sabe mortos retornados.

Há animais neste Bestiário, alguns não-descritos – e por isso, talvez mais assustadores – e alguns descritos com uma precisão que beira a loucura, como as inefáveis mancúspias, ou o tigre que percorre em silêncio a casa e cuja presença é preciso evitar educadamente.

Sejam quais forem tais bestas, elas são evidentemente o reflexo das almas das personagens – ou talvez não; talvez estejam, sim, desde sempre ocultas nos meandros dessa Buenos Aires inesperada (que se parece muito com qualquer cidade da América Latina…), esperando a oportunidade para atacar e fazer vítimas insuspeitas.

Trecho: Mudei-me na quinta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e tédio. Fechei tantas malas em minha vida, passei tantas horas preparando bagagens que não levavam a parte nenhuma, que aquela quinta-feira foi um dia cheio de sombras e correias, porque quando vejo as correias das malas é como se visse sombras, partes de um látego que me açoita indiretamente, da maneira mais sutil e mais horrível. Mas fiz as malas, avisei sua criada que viria me instalar aqui e subi de elevador. Precisamente entre o primeiro e segundo andar, senti que ia vomitar um coelhinho. Nunca lhe contara antes, não pense, porém, que por deslealdade, mas naturalmente a gente não vai ficar explicando aos outros que, de quando em quando, vomita um coelhinho.

Resenha de Rosana “Shelob”, que é membro da Toca SP do CB desde 2001.

>O Trílio Negro

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BRADLEY, Marion Zimmer; MAY, Julian; NORTON, Andre. Black Trillium. Tradução de Rodrigues, Aulyde Soares. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

Magia. O equilíbrio do mundo depende dela. Durante muito tempo, esse equilíbrio foi mantido, pois a Dama Branca, a Arquimaga, fez uso da magia para controlar a tênue paz entre Ruwenda, os países vizinhos e os povos não-humanos que habitam a península até as distantes montanhas, passando pelo perigoso Pântano Labirinto: nyssomus, uisgus, wyvilos. Mas agora tudo parece se romper, pois a Arquimaga se aproxima da morte e sua magia enfraquecida não pôde evitar que os Labornokis invadissem Ruwenda.

Voltrik, o Rei dos Labornokis, tem um aliado temível, o mago Orogastus; e ninguém sabe a extensão de sua sede de poder e de conhecimento. Ruwenda cairá sob o violento ataque e, para restaurar o equilíbrio rompido, a agonizante Arquimaga só poderá contar com as três irmãs gêmeas que são herdeiras do trono ameaçado: Haramis, Kadiya e Anigel. As jovens não sabem, mas possuem poderes ocultos, manifestados através das pétalas negras da Flor sagrada de Ruwenda, o Trílio, que cada uma delas traz consigo num pingente de âmbar.

As três filhas do Rei de Ruwenda terão de separar-se e fugir para não serem torturadas ou mortas, partindo numa busca desesperada em meio aos pântanos, montanhas e rios, entre povos hostis e até antropófagos, até encontrar três misteriosos talismãs. Juntos, esses talismãs ajudarão Hara, Kadi e Ani a desenvolver seus poderes e a se tornarem fortes o bastante para salvar Ruwenda e derrotar Orogastus.

Muito antes que fossem escritas histórias de manipulação da magia, como as de Harry Potter, ou do poder combinado de três irmãs, como em Charmed, O Trílio Negro e suas continuações, O Trílio de Sangue e O Trílio Dourado, nos trouxeram aventuras mágicas repletas de emoção, num mundo fantástico criado por três autoras de fantasia e ficção científica, reunidas por Marion Zimmer Bradley, autora de As Brumas de Avalon e da série Darkover.

Trecho: O manto manchado com o sangue da sua mãe, que envolvia a coroa, pendia ainda do seu ombro. Haramis abriu as pontas e olhou para a Coroa da Rainha com o âmbar que continha o trílio, até a dor nublar seus olhos. Pelo menos Voltrik não tem isto, pensou sombriamente, nem terá enquanto eu viver! Ele matou meus pais, mas eu vivo ainda, e Ruwenda é minha! Conteve as lágrimas. Eu sempre tive certeza de que seria rainha um dia – mas nunca imaginei que seria tão cedo… nem nestas circunstâncias! Espero que a Dama Branca possa me ajudar. Sem dúvida vou precisar de muita ajuda.

Resenha de Rosana “Shelob”, que é membro da Toca SP do CB desde 2001.

>Xógum

>CLAVELL, JAMES. Xógum – A gloriosa saga Do Japão. Rio de Janeiro: Nórdica, s/d

Inícios do século XVII. Um navio inglês naufraga nas costas do Japão. O piloto, John Blackthorne, sobrevive – mas é capturado por japoneses, e se torna uma peça num estranho jogo de poder, em que se confrontam clãs comandados por Daimios adversários, padres jesuítas, comerciantes e piratas de várias nacionalidades – portugueses, espanhóis, holandeses.

Orquestrando o conflito está Toranaga, um poderoso senhor feudal que tem altas ambições e grandes estratégias de guerra em mente. Blackthorne, que passa a ser chamado de Anjin-san, consegue se manter vivo em meio à intriga, apesar dos vários inimigos que angaria, e inicia então uma viagem de conhecimento em que sua cultura européia puritana se debate com a milenar cultura oriental. Não apenas a língua, os costumes, a alimentação e a vida familiar são totalmente opostas ao que ele conhecera; mas o próprio Japão se transforma, os jesuítas estão se alastrando, espalhando a fé cristã nas terras japonesas, e combatendo costumes milenares como a prática do seppukku, o suicídio ritual.

Personagens inesquecíveis povoam esta saga épica, que mostra como a intriga política levou à instituição do Shogunato, ou Xogunato, na Terra do Sol Nascente. Blackthorne, Toranaga, a bela e trágica Mariko e muitos outros revelam esse choque de culturas repleto de samurais e de poemas compostos em meio à guerra e à morte.

Trecho: “Blackthorne esperava no jardim. Agora usava o quimono marrom que Toranaga lhe dera, com espadas ao sash e uma pistola carregada, escondida também sob o sash. Através das apressadas explicações de Fujiko e subseqüentemente pelos criados, aprendera que tinha de receber Buntaro formalmente, porque o samurai era um importante general e
hatamoto, e era o primeiro hóspede na sua casa. De modo que tomara um banho e trocara de roupa rapidamente e se dirigira ao local que fora preparado.”

Resenha de Rosana “Shelob”, que é membro da Toca SP do CB desde 2001.

>Contos Inacabados

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TOLKIEN, J. R. R. Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média. Editado por Christopher Tolkien. Tradução de Ronald Eduard Kyrmse. S.Paulo: Martins Fontes, 2002.

Após a publicação do Silmarillion, este foi o livro em que Christopher Tolkien publicou vários fragmentos escritos por seu pai, contando passagens da grande história da Terra-média que não foram explicadas nos livros anteriores (O Hobbit, O Senhor dos Anéis e o Silmarillion). Dividido em quatro partes, Contos Inacabados nos traz relatos de fatos acontecidos nas três Eras de Arda.

Em relação à Primeira Era, temos a história de Túor até chegar a Gondolin, e uma versão do Narn i hin Húrin contendo comparações de versões antigas com a que foi publicada no Silmarillion. Sobre a Segunda Era encontramos histórias de Númenor, com mapa da ilha, a linhagem dos reis, a história de Aldarion e Erendis. Nessa parte do livro temos ainda uma pérola, a história de Galadriel e Celeborn, que elucida muitos dos pontos vagos de O Senhor dos Anéis. Na terceira parte do livro contempla-se a Terceira Era, com narrativas sobre Gondor, Rohan e a saga do Anel. Há um relato de Gandalf esclarecendo detalhes sobre sua participação nessa saga, desde que mandou os anões à casa de Bilbo até a destruição do Um Anel; e um apêndice narrando pontos importantes da história de Rohan. A quarta parte traz ensaios explicativos sobre os Drúedain, os Istari e os Palantíri, muitas notas, um glossário, um mapa.

Este é um livro para ser lido por quem já leu o SdA e o Silmarillion, e deseja detalhes sobre fatos acontecidos nas entrelinhas da narrativa tolkiendili que vai da Primeira à Quarta Era. Como contém vários relatos, sua leitura é mais suave que a dos outros livros, podendo ser saboreado aos poucos – uma Era por vez…

Trecho: “Assim foi que, na tardinha do dia seguinte, os Cavaleiros Negros toparam com Gríma Língua de Cobra, que se apressava a levar notícias a Saruman de que Gandalf chegara a Edoras, e alertara o rei Théoden dos desígnios traidores de Isengard. Naquela hora, o Língua de Cobra quase morreu de terror; mas, habituado à traição, teria dito tudo o que sabia diante de ameaças menores.”

Resenha de Rosana “Shelob”, que é membro da Toca SP do CB desde 2001.